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O perdão e o desapego.

 O perdão é possível? Quando criança, passei por coisas muito doloridas, traumáticas. Agora, na meia-idade, estou analisando estes momentos com um olhar menos engajado, com um distanciamento emocional que pode me levar a compreender melhor o passado. E talvez me permitir perdoar a mim e aos outros pelas más escolhas e pelos maus amores.  Perdoar é uma palavra tão utilizada e tão pouco compreendida no dia a dia. A origem da palavra é o latim, per-donare. Perdonar significa, em português, doar , desistir de uma dívida .Eximir alguém de uma obrigação passada ou presente. Minha interpretação deste ajuntamento é mais simples: doar ao outro a desobrigação de manter um vínculo gerado ou prometido. Liberar o outro de uma obrigação ou promessa, mesmo quando esta promessa abrange apenas os acordos tácitos de civilidade: respeito mútuo entre amigos, compromisso com o acordo de convivência entre amantes e, por fim, o comprometimento entre irmãos. Então, o primeiro momento do perdão é um a...
 Aquele espinho no dedo que não quer sair, aquela dor na alma que não quer sumir, tudo aquilo tem um motivo, tudo tem um sentido, um porque  de existência Existe uma insistência na sociedade da qual sou parte, no poder da superação. Superar é ser forte, superar é ser resiliente, é estar acima da vulnerabilidade humana que nos apavora tanto.  Mas e se você não puder super ar?  E se você só puder sobreviver, com o espinho que virou calo e que vai doer sempre que você pensar na ferida que existia alí? E se você só puder exigir de si mesmo continuar existindo com o espinho no pé que dói a cada pisada, ou com aquela dor na alma que não vai deixar de existir porque os cortes que fizeram na sua são muito profundos, e mesmo cicatrizes tem o poder de doer intensamente, ainda que não sangrem.  Se a tua identidade for tão definida pelas escaras das costas, as marcas que os amores não retribuídos deixaram forem tão intensas que não dá pra apagar, esquecer e seguir em frente...
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 Quando a criação se transforma em investigação. Recentemente alguém me pediu pra ilustrar um buraco. Literalmente, me apresentaram uma obra do artista francês Hervé Tullet, que aptamente se chama O livro com um buraco. E me pediram para ilustrar o livro, com ideias interativas em volta do buraco. A pessoa em questão, orientadora da escola em que trabalho, se recusou a me passar suas ideias, insistindo que eu desenvolvesse as minhas ideias em volta do buraco.  Afirmo, com bastante certeza, que nada me fez ter medo como esse livro. Com exceção, talvez, das crises insanas de pânico que tive no passado, isso é totalmente diferente. O medo causado pela ansiedade generalizada é um. O medo de errar é outro. O medo de viver com medo é um mote dentro das síndromes do pãnico e do transtorno pós-traumático. O medo de errar no papel em branco é um outro estado de antecipação e ansiedade. É o montante de possibilidades misturado com o tanto de falhas possíveis que podem levar à derisão, a...
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O oposto da cura   Brinco às vezes de buscar o oposto das palavras, só pra manter o vocabulário. E também porque me pergunto sempre: há algum valor no negativo? Por exemplo, para quem desenha, o negativo é uma parte valiosa do processo de aprendizagem. São aqueles espaços em volta da forma que você tem que aprender a observar. O negativo de uma cadeira é o que não é cadeira,é o que está em volta da cadeira. Então o negativo pode ser dito o vazio, mas também pode ser outro espaço onde o ar se move e pelo qual o positivo se define.  Por exemplo, o oposto da cura é o desleixo, o descuido, a negligência. Mas há algum valor nestes opostos? O oposto pode apresentar um contraponto, uma ilusão a ser observada com olhos perceptivos e sem julgamento. Desleixo é a ilusão de que nada importa, então nada precisa ser aprimorado. A procrastinação é parte da dinâmica entre a negação da dor e a busca do prazer. Negligenciar é não dar atenção, é deixar de lado, é não cuidar.  No desenho, o...

O trabalho que nunca termina

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O trabalho doméstico nunca tem fim. E, quanto mais você faz, mais coisas aparecem pra fazer . Sempre admirei aquelas pessoas que têm o controle da casa, com tudo no lugar, tudo limpinho e organizado. Eu nunca fui assim.   Estou há dois dias tentando limpar e organizar minha casa. Preparando o espírito para começar um novo ano.  Sempre trabalhei devagar quando limpo e arrumo a casa porque, para mim, a limpeza da casa sempre foi um peso, uma coisa negativa, uma obrigação insuportável. Não que eu não tenha prazer em ver o resultado final, mas sim porque quando criança, todo o trabalho doméstico caía nas minhas costas. Na verdade, era uma tradição que passava sempre pra menina mais velha: primeiro minha irmã, depois minha outra irmã, depois eu, e por fim minha irmã mais nova quando eu comecei a trabalhar. O famoso segundo turno.  Fui uma daquelas meninas tratadas como empregadas mirins em casa.  Em minha família, as meninas e moças eram as que limpavam, lavavam, org...

Finalizei e lacrei a limpeza do quarto.

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 Talvez algumas pessoas se identifiquem com esta imagem:  Quarto: roupas espalhadas, objetos jogados no chão, gatos e sapatos para todos os lados. Este é o meu quarto. Não posto imagens, pois não gosto de segurar a ponta da corda pra me enforcar. As roupas são o pior. Não lavo uma peça há mais de duas semanas. Não tenho literalmente nada pra usar que não esteja em estado de negligência.  Claro que esta situação não começou agora, mas sinto que está se intensificando com o tempo. Porquê? Me pergunto. Não é que eu não saiba o que fazer. Apenas não encontro a motivação, ou o impulso, de fazer o que é necessário.  Quando começo a limpar , logo mudo de direção ou perco a motivação. Começo e recomeço as mesmas tarefas e deixo todas pela metade. Quando chega o fim do dia, o que pra mim acontece lá pelas 23 horas da noite, às vezes mais tarde, eu me prometo que no dia seguinte vou fazer o que não fiz. E assim se vão dias, semanas, meses.  Hoje fiz diferente. Comecei a l...