Brinco às vezes de buscar o oposto das palavras, só pra manter o vocabulário. E também porque me pergunto sempre: há algum valor no negativo? Por exemplo, para quem desenha, o negativo é uma parte valiosa do processo de aprendizagem. São aqueles espaços em volta da forma que você tem que aprender a observar. O negativo de uma cadeira é o que não é cadeira,é o que está em volta da cadeira. Então o negativo pode ser dito o vazio, mas também pode ser outro espaço onde o ar se move e pelo qual o positivo se define.
Por exemplo, o oposto da cura é o desleixo, o descuido, a negligência. Mas há algum valor nestes opostos? O oposto pode apresentar um contraponto, uma ilusão a ser observada com olhos perceptivos e sem julgamento. Desleixo é a ilusão de que nada importa, então nada precisa ser aprimorado. A procrastinação é parte da dinâmica entre a negação da dor e a busca do prazer. Negligenciar é não dar atenção, é deixar de lado, é não cuidar.
No desenho, o negativo traz o positivo à tona, e entre um e outro existe uma linha imaginária: a linha de contorno. Com o negativo o positivo se transforma e se vale, se aprofunda.
Será que na vida pode ser assim também? Pensando na insegurança avassaladora que toma de ataque muitos de nós, será que o excesso a positividade não leva essa insegurança ao seu extremo, transformando-a em ansiedade generalizada e, algumas vezes, incontrolável. E nós, brasileiros, com nossa congenialidade quase doentia, temos alimentado nossas inseguranças com extremos de positividade tóxica. Por isso polarizamos tanto e nos tornamos, pouco a pouco, inconciliáveis: porque não há pontos de contato entre o ruim e o bom, entre o certo e o errado. Tudo tem que ser visto sob o ponto de vista absoluto, nada se distende nos porquês saudáveis da dúvida.
Falando em termos pessoais, tenho medo de admitir o erro, mesmo sabendo que este faz parte da aprendizagem; aprendi que valorizamos o acerto com uma parte da busca doentia de perfeição, o que contraria o processo mesmo de viver. Sei que errar é humano, mas não tenho a coragem de admitir que vou errar, e nem admito a possibilidade da falha, do fracasso, da dúvida e da percepção de que o negativo nos faz aprender e garante o movimento da vida numa dinâmica de crescimento. Isso porque desde o início da vida fui condicionada a não errar. Os castigos cruéis da infância, vindos da família, do círculo social, da escola, incutiram na cabeça que errar é feio, é ruim, é um momento delimitado com a força indelével da caneta vermelha. É um momento de vergonha.
Quando comecei a me dedicar ao desenho, somente entendi um pouco do processo de produzir imagens quando entendi que o erro não precisa ser apagado. O erro, no desenho, é uma chance de transformar e criar espaço para incorrer na aprendizagem que só o negativo pode oferecer. O erro precisa ser visto assim, como uma parte valorosa do processo. Uma parte a ser assumida, incorporada e aproveitada pra fazer o desenho virar do avesso e descobrir novas possibilidades.
Quando estava em sala de aula, observava os desenhos de alunos e descobri que aqueles que não se importam tanto com acertos e regras são os que se expressam com mais autenticidade. Não que eu pregue a ilusão de que o erro não existe. Só insisto em que o desenhista, seja criança ou adulto, não se deixe limitar ou paralisar pelos erros cometidos.
Quando preciso me livrar do medo de criar, preciso ir ao core deste medo. E lá no centro, lá no fundo pulsando e me paralizando, sempre tem o medo de errar, de não ser boa o bastante. Esse é um dilema vivido por toda pessoa que se propõe a produzir algo. E pesa ainda mais nos ombros e nas mãos de quem se propõe a criar artísticamente.
E aqui é que entram os aspectos de não cura que podem ser incorporados ao processo criativo: descuidar pode ser perigoso, mas também pode ser libertador. A negligência pode ser vergonhosa, mas também é poderosa. Mal aplicada é um instrumento de manipulação ou de indiferença. Se aplicarmos o descuido de forma investigativa e não de forma perigosa, o processo criativo sai de sua estagnação e passa a ter um impulso. Os aspectos oposicionais entre negativo e positivo podem proporcionar uma ação. Por isso, talvez, uma boa metáfora imagética para estes sentidos que se contraem e se expandem seja o princípio do Yin Yang. Como dois valores que se complementam num movimento persistente, em que um oposto inspira o movimento do seu complementar. Porque no fundo, quando se coloca tudo em um contexto maior, podemos perceber claramente que um não pode existir em profundidade sem o contraste do outro.
E com isso, considero temperar essa busca incessante do sucesso com os opostos ao foco que ele demanda. O oposto do acerto me permite explorar as possibilidades do erro. Uma ideia avulsa pode revolucionar um processo que se desenvolve na esfera da projeção linear. E a busca da cura pode ser aprofundada ou até mesmo transformada pelos momentos de descuido e desfoco. Para inserir dinâmica e movimento na vida, não precisamos abandonar nosso cotidiano tão estruturado e arriscar sair do caminho preestabelecido? Por isso tiramos férias, por isso valorizamos a pausa entre uma semana e outra de trabalho. Por isso, o brasileiro gosta de festejar e de improviso. Pra temperar os ciclos incessantes do trabalho que muitas vezes nos impedem de vislumbrar um rasgo de felicidade.

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