O trabalho que nunca termina
O trabalho doméstico nunca tem fim. E, quanto mais você faz, mais coisas aparecem pra fazer. Sempre admirei aquelas pessoas que têm o controle da casa, com tudo no lugar, tudo limpinho e organizado. Eu nunca fui assim.
depois eu, e por fim minha irmã mais nova quando eu comecei a trabalhar. O famoso segundo turno.
Fui uma daquelas meninas tratadas como empregadas mirins em casa. Em minha família, as meninas e moças eram as que limpavam, lavavam, organizavam, cozinhavam. Os meninos corriam pela rua o tempo que quisessem, brincavam até a noite cair, soltavam pipa e ficavam livres pra fazer o que quisessem. Os mais irmãos mais velhos obrigavam os mais novos a assumir todo o trabalho, iam pra rua brincar e fazer amigos. Eu ficava em casa, tomando conta de outras crianças, lavando, limpando e cuidando de roupas eram tarefas essencialmente femininas. Se reclamasse, além de apanhar, vinham os apelidos: bicho preguiça ou ser taxada como preguiçosa e irresponsável.
Fui chamada de coisas piores porque brincava na rua, deixava pra fazer as tarefas no último segundo antes de minha mãe chegar. Ela, cansada de trabalhar o dia todo, esperava chegar em casa e encontrar a casa limpa, a comida no fogão, as crianças menores limpas e cheirosas. Então, eu sempre era a última a tomar banho, a última a comer porque tinha que fazer a comida e dar banho nos irmãos menores, cuidar dos sobrinhos, lavar a louça e limpar o chão.
Isso gerou uma resposta traumática a diversas situações domésticas. A dificuldade em manter a pia limpa e as louças organizadas, o amontoado que faço com as roupas limpas, a bagunça generalizada que muitas e muitas vezes toma conta da casa, a ponto de ter que contratar ajuda porque não consigo sair do ciclo de procrastinação.
Recentemente, ouvi um podcast em que um terapeuta explicava que procrastinação não é preguiça, é uma resposta a um ou vários traumas. É necessário saber o que exatamente causa a procrastinação. Eu reconheço os sintomas de longe: começa com uma moleza no corpo, às vezes é sono, às vezes é uma apatia generalizada. Outras é um amontoado de ações que não chegam a lugar nenhum. Chega no final do dia, estou exausta e a casa continua na mesma, com um monte de coisas feitas pela metade. Outras, não consigo sequer respirar, a ansiedade paralizante apertando o meu peito.
Os resultados sobre a saúde mental são devastadores: a depressão, uma situação constante da qual não consigo me curar - porque segundo os médicos não há cura para essa tristeza que corre como um rio subterrâneo e profundo que não para de renovar suas águas. A linha limítrofe que me separa do resto do mundo. E, mais do que isso, o aprofundamento da solidão e do isolamento que uso para me proteger do mundo cruel - ironicamente, esse mesmo isolamento é autoimposto, mas sem ele não me sinto capaz de viver.
Então, a organização e limpeza da casa refletem sempre o meu estado mental, a minha vontade de superar a procrastinação e a ansiedade são pontos importantes para mim. Uma batalha constante que não se resolve. Estou sempre buscando meios de ganhar o higher ground, ficar um passo a frente, mas as coisas se acumulam e eu sempre me sinto sobrecarregada com a montanha de louças para lavar, a quantidade de roupas que se acumula no cesto, Os sapatos que espalho sem perceber e que os gatos sempre mordem nos calcanhares e marcam o território com seu mijo
Agora, por exemplo, meu plano é criar um jogo, com desafios, pontuações, e atribuição de valores a cada tarefa realizada. No final do jogo, a pontuação será transformada em valor monetário, que eu usarei pra comprar prêmios ou para guardar na poupança. Imaginei que, se eu posso pagar outras pessoas para fazer a limpeza, posso também pagar a mim mesma, e isso não só faz sentido como também ajuda na motivação.
Atribuí o valor de uma diária a um número de tarefas domésticas. No primeiro dia fiz um jogo complicado com regras, tarefas sorteadas no papelzinho, pontuação para cada tarefa finalizada. Mas o sorteio implicava em tarefas aleatórias e o resultado foi igual aos outros esforços anteriores: um monte de coisas feitas pela metade.
Ontem fiz diferente. Escolhi um lugar da casa e mantive o foco num só lugar, fazendo pausas a cada momento ou sempre que desejava. Aí, uma nova realidade se apresentou: fiz o que tinha que fazer, mas a limpeza se estendeu pela noite adentro. Claro, o lugar escolhido foi a cozinha, porque sim. E aí é que mora a dificuldade. Passei o dia e uma boa parte da noite me esforçando para lavar a montanha de louça que já estava há alguns dias esperando a coragem aparecer. Isso implica em lavar, secar e guardar a louça, limpar todos os cantos da cozinha, o chão, o armário, a parede. Depois de 10 horas, com um cochilo no meio do dia pra repor as energias, consegui terminar quase todas as tarefas, com exceção da limpeza da geladeira, que deixei por último e não consegui terminar. Os resultados foram melhores, mas o processo foi longo.
Coisas que as diaristas fazem em uma ou duas horas me tomaram um dia inteiro. Porque não é só a limpeza, é também o conflito interior. É desistir e voltar atrás, é organizar a mente pra não deixar pela metade. É chorar de frustração porque depois de quatro horas ainda estou lavando e secando louças ao invés de fazer algo mais divertido. E enfrentar a realidade: se eu não fizer, ninguém irá fazer, porque eu moro sozinha.
Agora, estou tentando manter o que fiz ontem: manter a pia vazia, o chão limpo, a mesa sem a bagunça de objetos tirados do lugar e que não retornei por falta de atenção ou maus hábitos construídos ao longo do tempo.
Dizem que leva pelo menos 21 dias pra mudar um hábito, estabelecer uma nova forma de pensar, reorientar os caminhos neuronais que nos levam a novos conhecimentos. Então, resolvi me dedicar a este jogo por vinte e um dias e registrar o resultado neste blog.

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