Quando a criação se transforma em investigação.

Recentemente alguém me pediu pra ilustrar um buraco. Literalmente, me apresentaram uma obra do artista francês Hervé Tullet, que aptamente se chama O livro com um buraco. E me pediram para ilustrar o livro, com ideias interativas em volta do buraco. A pessoa em questão, orientadora da escola em que trabalho, se recusou a me passar suas ideias, insistindo que eu desenvolvesse as minhas ideias em volta do buraco. 



Afirmo, com bastante certeza, que nada me fez ter medo como esse livro. Com exceção, talvez, das crises insanas de pânico que tive no passado, isso é totalmente diferente. O medo causado pela ansiedade generalizada é um. O medo de errar é outro. O medo de viver com medo é um mote dentro das síndromes do pãnico e do transtorno pós-traumático. O medo de errar no papel em branco é um outro estado de antecipação e ansiedade. É o montante de possibilidades misturado com o tanto de falhas possíveis que podem levar à derisão, ao fracasso de uma tarefa única que me colocaram. 

E por que a pergunta sobre a investigação? Porque o medo de falhar numa tarefa criativa me causou espasmos de ansiedade nunca antes alcançados, mas ao mesmo tempo me deu a oportunidade de me mover para fora do medo e em direção à criação. 

Mas antes, algumas verdades. Verdade: eu entrei num curso de desenho no qual a professora, ao invés de insistir em uma trajetória que não me instigava, escolheu sair de sua posição de autoridade para favorecer um espaço de autoria para seus estudantes. Ela apresentou uma proposta de estudo do desenho em que tínhamos que reproduzir milimetricamente as proporções de um rosto humano. Depois de um mês tentando, eu percebi que aquilo estava me tolhendo. E expus a ela o incômodo que tinha - tenho - em fazer uso de tantos instrumentos de controle para desenhar: ponta do lápis, compasso, lapis apontado dentro de especificações técnicas. 

Minha vontade era de rabiscar e rebuscar, soltar a mão mesmo, sem medo de arriscar o erro. Ela, professora Romi Pova, me incentivou a perseguir essas inquietações dentro do desenho. E me orientou a investigar em traços e formas aquilo que não cabia nas medidas. E isso me fez infinitamente melhor como desenhista. 

Me lembro do dia em que eu decidi que era capaz de desenhar. Estava com dificuldades num desenho, um rosto feminino com uma delicadeza surpreendente embaixo dos traços fortes: Virginia Wolf era a modelo da foto que apoiava meu desenho. 

E de repente me veio aquela frustração de não saber o que fazer, por onde começar, qual o primeiro traço a marcar o papel, como compor o processo. E de repente também me veio a frustração de estar de novo começando a desenhar, num curso iniciante depois de tantos anos pesquisando técnicas e perseguindo microsonhos. 

As pessoas sabem pouco sobre a ansiedade de criar. É diferente de outras ansiedades. É como um empurrão em direção ao escuro. Porque uma coisa há em comum nos processos de criação, seja em teatro, seja em desenho: a gente pode escolher como começar, traçar o primeiro traço. Mas a gente não sabe onde vai terminar. Acho que é por isso que chamam essa coisa de processo. Porque você pode planejar tudo, e seguir o plano ao pézinho da letra. E mesmo assim, no final tudo será mais do que você imaginou. Ou menos, dependendo do que você escolhe. E é essa incerteza que me apaixona. Claro que ter um resultado surpreendente, poderoso, vivo, majéstico, tudo isso é muito bom também. Mas o desenrolar do traço na folha, o caminhar da luz pelo rosto, o revolver das cores que estão paradas mas sempre em movimento porque aluz não para de brilhar, refletir e refratar, de acordo com o movimento das mãos em pressionar o lápis ou a caneta, aquele espaço entre a impressão feita no papel e a interpretação que o cérebro olho cria na mente. Tudo isso me apaixona. 

E o buraco ficou maior e menor do que o previsto. O livro se desenvolveu e "terminou" no último dia letivo do ano. Foi entregue com o cheiro do suor das mãos, com as marcas invisíveis das patas do gato Jorge e do gato Rafael, sem falar nos outros que deixaram suas marquinhas. Foi entregue com as marcas da luta entre lápis e papel, com o desejo e com o alívio de decisões tomadas que deram certo, e algumas que nem tanto. E no espaço entre uma página e outra tantas coisas foram ditas e desenhadas e descobertas. Com o buraco no centro, primeiro como desafio, depois como metáfora e, por fim, como incontestável e simples fato: buraco. Não pra ser tapado ou escondido ou tolhido, mas para ser incorporado. Se um dia eu conhecer o autor desse livro, vou agradecer a oportunidade. 

Mas o que tudo isso tem a ver com tudo aquilo? Bom, em algum momento do processo uma decisão se formou e firmou dentro de mim, uma que me fez vencer a ansiedade e iniciar, desenvolver e terminar o livro. Eu percebi que o medo era infundado, porque eu sei desenhar. Não sei tudo, mas sei. Estou nesse caminho há anos. E em algum momento, eu tinha que me atomizar e perceber que já sei. Sei desenhar, sei conectar pontos e formas, linha e cores; sei dar significado aos rabiscos, sei dirigir o olhar do espectador em torno do processo, até que ele se concretize em imagem. Eu sei o que preciso saber, e o que não sei sempre posso investigar. E vou fazer isso porque a criação se transformou em investigação, em busca, em processo. Mas também em foco, em assertividade, em autoria e autonomia. 



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