Finalizei e lacrei a limpeza do quarto.

 Talvez algumas pessoas se identifiquem com esta imagem: 

Quarto: roupas espalhadas, objetos jogados no chão, gatos e sapatos para todos os lados. Este é o meu quarto. Não posto imagens, pois não gosto de segurar a ponta da corda pra me enforcar. As roupas são o pior. Não lavo uma peça há mais de duas semanas. Não tenho literalmente nada pra usar que não esteja em estado de negligência. 

Claro que esta situação não começou agora, mas sinto que está se intensificando com o tempo. Porquê? Me pergunto. Não é que eu não saiba o que fazer. Apenas não encontro a motivação, ou o impulso, de fazer o que é necessário.  Quando começo a limpar , logo mudo de direção ou perco a motivação. Começo e recomeço as mesmas tarefas e deixo todas pela metade. Quando chega o fim do dia, o que pra mim acontece lá pelas 23 horas da noite, às vezes mais tarde, eu me prometo que no dia seguinte vou fazer o que não fiz. E assim se vão dias, semanas, meses. 

Hoje fiz diferente. Comecei a limpar o quarto logo que acordei. Levantei da cama e usei um método que aprendi na internet: começar de um ponto e seguir três ondas de limpeza. Enquanto limpava o quarto, também arrumava a sala, que consiste num espaço vazio para uso dos gatos, mas que está sempre sujo com xixi no canto e muitos tufos de pelos. Este método é fácil de seguir. Na primeira onda a gente organiza tudo o que precisa pra fazer a limpeza: sacos de lixo, desinfetantes, panos de chão e de limpeza. 

Depois tira o excesso de coisas do chão e seleciona o que não faz parte do quarto: objetos e tudo o mais. Nesta primeira onda meu quarto já parece 50% melhor. Para a segunda onda de limpeza, se escolhe um ponto do quarto pra começar a limpar e organizar - o que responde àquela assustadora pergunta que sempre nos vem quando está tudo tão revirado na nossa vida: "Por onde eu começo?" Resolvi começar pela mesa amarela que está sempre cheia de objetos. Indo no sentido horário, da esquerda para a direita, faço a organização  e a limpeza de cada parte do quarto. No meio do processo, sinto uma agitação interior típica da "ansiedade de acabar logo", seguida por um cansaço enorme. 

Mudo de direção, vou terminar de limpar a sala, deixando as tarefas do quarto em suspenso. Termino de lavar e secar o chão da sala e retorno para o quarto. Olho à volta e recorro à repetição do ciclo de procrastinação. Deito na cama, brinco com o gato, jogo alguma coisa no computador. Nisso se passa meia hora, chega o meio do dia. 

Comecei hoje a fazer um exercício que não fazia antes: observar minhas emoções durante a limpeza do quarto. Me perguntei qual é o impedimento, de onde vem o incômodo que me paralisa e não permite que finalize o que comecei. Aquela sensação de desistência interior, a fadiga que pesa sobre a cabeça, a ansiedade que me faz querer parar tudo e sair pra comprar algo pra comer. Já sei que não adianta apelar pra força de vontade porque, honestamente, não tenho nenhuma fé em me forçar a fazer coisas que não quero. Mas escolho continuar fazendo pequenas coisas em intervalos de tempo que vão de cinco a 20 minutos. Divido a grande tarefa de limpar o quarto em tarefas menores: organizar a estante, limpar o tapete, dobrar roupas que se amontoam sobre a cama. E escolho me dar o direito de fazer pausas e tirar um tempo pra descompressão. O tempo é curto, cinco a dez minutos de distração. E depois de duas horas assim, consegui finalizar a limpeza do quarto. 

A sensação é de alívio, de orgulho e de ter dado um passo importante em direção à sanidade, ao autocuidado, a uma sensação de ter retomado o controle. O último intervalo é maior, de meia hora. E foi assim que resolvi escrever sobre estes momentos. 

Aprendemos que a vida é feita de grandes momentos, sensações intensas e explosões de felicidade. Mas com o passar do tempo fui descobrindo que o contentamento das conquistas cotidianas é tão importante quanto aqueles outros que se tornam marcos em nossa trajetória. O contentamento de terminar uma tarefa que sempre me enche de ansiedade e que hoje, apenas hoje, consegui transformar em um momento de ação, reflexão e autoconhecimento.  Estou começando a entender por que os grupos de autoajuda insistem em reforçar a ideia de que temos que viver um dia de cada vez, dar um passo, depois outro, depois um terceiro. É porque é muito difícil fazer as coisas grandiosas. Mas as grandes coisas podem ser partidas em pedaços menores e mais fáceis de manusear e de lidar. 

O mais trabalhoso não é vencer o desafio, mas sim vencer a resistência interior, vencer aquela voz interior que repete a mesma cantilena: "é demais, é tudo demais, eu não dou conta!" E perceber que sim, a gente dá conta. Se escolher os instrumentos certos, determinar um tempo pra fazer a coisa e até se permitir falhar, errar até aprender como fazer melhor. E no meio de tudo entender que as coisas não precisam ser perfeitas pra serem positivas, que qualquer esforço que se faz na direção que se deseja - seja um quarto limpo ou um novo emprego - começa em fazer aquilo que precisa ser feito, mas se dando o direito de não ser perfeito. 

E pra quem se interessar, aqui está o link para o vídeo que demonstra o método de limpeza que usei hoje pra organizar o meu quarto:  


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