Aquele espinho no dedo que não quer sair, aquela dor na alma que não quer sumir, tudo aquilo tem um motivo, tudo tem um sentido, um porque de existência
Existe uma insistência na sociedade da qual sou parte, no poder da superação. Superar é ser forte, superar é ser resiliente, é estar acima da vulnerabilidade humana que nos apavora tanto.
Mas e se você não puder super ar?
E se você só puder sobreviver, com o espinho que virou calo e que vai doer sempre que você pensar na ferida que existia alí? E se você só puder exigir de si mesmo continuar existindo com o espinho no pé que dói a cada pisada, ou com aquela dor na alma que não vai deixar de existir porque os cortes que fizeram na sua são muito profundos, e mesmo cicatrizes tem o poder de doer intensamente, ainda que não sangrem.
Se a tua identidade for tão definida pelas escaras das costas, as marcas que os amores não retribuídos deixaram forem tão intensas que não dá pra apagar, esquecer e seguir em frente.
Quando você pensa na dor que foi, e ela ainda dói, é porque não houve superação. Eu tenho uma teoria sobre isso. E minha teoria é simples: a gente não supera, a gente apenas aprende a conviver com a dor. Ela começa a fazer parte da tessitura dos músculos, da composição dos nervos, da reconstrução das células.
Pra continuar o corpo não tem que esquecer, ele só precisa por uma bandagem em volta. Isso é o calo: protege o que é sensível à dor. Protege as partes vulneráveis do corpo para que elas não se remachuquem, pra que as feridas não continuem se abrindo. A que eu estou me re-ferindo?
Eu estou me referindo aos estados de sensação que guardamos mesmo quando nossa vida social nos pede pra esconder. Está tudo lá, escrito no corpo: a dor, a rejeição, o abandono, a negligência, o controle do outro sobre nossa autonomia, as piadas às nossas custas, os gritos e as porradas. Está tudo lá.
Está tudo dentro da cicatriz, está tudo dentro do calo.
Porque calar quer dizer exatamente isso: propor ao seu corpo que silencie, que sofra sozinho, que enxugue o próprio sofrimento e faça o que todo mundo faz. Ignore o sofrimento, finja que não existe e nem nunca existiu. Isso é o que a mística da superação implica; em fingir que a marca foi apagada, que o medo foi vencido, que a dor foi deixada para trás.
Aquele cara ou aquela cara que ocuparam anos de sua vida e não tinham a menor intenção de te escolher: ah, já faz tanto tempo, como é que pode doer ainda? Aquela pessoa amiga que jurava que você era como um irmã, no final, quando você ficou mal mesmo, ela escolheu te cortar da vida dela, não te deu uma chance de existir em recuperação, de buscar algum tipo de redenção e talvez até, ironicamente, de superação.
Ah, mas você é forte. Te jogaram fora mas você sempre foi forte. E se eu menti a minha força? E se eu apenas calei pra não dizer das dores que ficaram tão fortes a ponto de eu pensar em não mais existir?
Pois eu estou aqui pra dizer: a superação é um mito, mas não é um mito pra todos. Tem gente que realmente encontra um meio de superar e seguir adiante sem que a cicatriz esteja cheia de dolores. Mas nem todos tem esse poder e é por isso que deixamos a vida nos endurecer. Porque só endurecendo é que os nossos tecidos conseguem continar funcionando.
Mas é impossível passar por essa vida sem as marcas das batalhas das quais fizemos parte, as facas, gilete, agulhas, tapas e palavras que nos marcaram, essas deixaram um signal, uma motivação inesperada que irá se manifestar em momentos de crise. Essas motivações subreptícias, essas dores ilícitas que se inserem nos espaços de existir não vão a lugar nenhum. E, pasmem, não há terapia que apague isso.
A terapia, ao contrário, faz é expor estas estagnações. Mas nem sempre te ensina a limpar o pus e curar a ferida. Porque, honestamente, eles também não sabem o que fazer com a sua ou a minha dor. Eles esperam que falando, exprimindo, descalando, a gente encontre o caminho pra conviver com essas realidades impressas em nós, e deste modo tenhamos a chance de seguir em frente
Terapia te oferece a oportunidade de encontrar a tua voz e falar a tua dor. E é por isso que cansei de terapia. Porque chega um momento em que falar não é o suficiente. É preciso confrontar para além dos confinamentos de um consultório. Porque é muito cerebral ficar falando, enquanto o corpo está ali sofrendo de novo os abusos pela memória. Eu quero o reconhecimento da minha dor. Eu quero a chance de olhar pro ex-amor e dizer "você foi mesquinho e covarde comigo, e eu deixei porque eu te amava, e porque achei que em algum momento você fosse me escolher." Eu quero a chance de dizer pra ex-amiga: " quando foi que o teu espaço pra mim se esgotou, quando minha doença mental ficou evidente ou antes, quando minha utilidade como 'irmã' já não era necessária?"
O que adianta eu recuperar a minha voz num consultório quando não tenho a chance de revidar, de dar a eles a mesma dose de sofrimento que eles me fizeram sentir? Ou pelo menos dar-lhes a chance de entender que a arrogância era mais um calo, que não significava que eu não precisava deles ou que tão independente. Na verdade, só indicava mais pendências, mais ganchos na pele que me ligavam a umas amarras que não se soltaram de jeito nenhum.
Eu não tenho respostas pra estas perguntas. Mas tudo bem. Não vou me calar diante delas também. Nem todos os contextos tem que ser resolvidos com platitudes. As vezes tudo o que eu necessito é dizer, falar das dores porque elas ainda existem, ainda estão aqui e me paralizam. Eu ainda ouço aquelas vozes, sinto aquela rejeição como se fosse real, sinto o abuso como se ele estivesse acontecendo no memento, como se a minha memória não tivesse registrado o momento e a cada vez que eu reconto é como se eu fosse transportada para lá.
Preciso encontrar uma terapia que me ajude a entender que não está tudo bem, porque nunca esteve. Eu só calei a boca, engoli o choro, parei de fazer a ferida se reabrir e deixei cicatrizar de verdade. Mas antes eu peciso entender que pra fechar uma ferida a gente tem que limpar, tirar a terra, o caco de vidro, a palavra que corta a emoção que enruste e o sentimento que embotoa. E tudo isso tem que sair pra que a cicatriz assuma sua verdadeira realidade, uma chance de assumir que sim, essas coisas doem e continuam doendo porque não foram resolvidas. O tempo, meus caros, não resolve nossas feridas. O tempo põe uma camada sobre elas. Mas é preciso às vezes abrir espaço pra que as farpas sejam removidas, as bolhas sejam esvaziadas, os cortes sejam limpos. É preciso arrancar a bandagem e deixar o ar tocar a ferida. Arejar a área, revelar o sintoma, entender a dor. E não me venha com essa falácia de superação. Eu não tenho a menor ideia do que seja isso, e nem é justo que aqueles que tentar me calar pra não serem incomodados pela minha voz, venham me dizer que eu tenho que calar pra não ser um incômodo. Calar não é uma estratégia, é um instrumento de opressão.
Não quero que usem meu silêncio contra mim. E já fizeram isso tantas vezes. Estou cansada do abuso social, no qual a vítima tem que ser sintomatizada, diagnosticada, enviesada numa garrafa como se uma solidez de vidro ou de parede fosse o bastante pra me entender e me definir.
Quando se é uma mulher solteira e sem filhos num mundo patriarcal, a sociedade inteira quer definir o que é melhor pra mim. Querem ditar que tipo de relação devo construir com as minhas realidades interiores. Todo mundo quer me dizer como eu devo resolver meus problemas. Mas por que eles acham que não sei fazer minhas escolhas?
Querem me tutelar, mas nunca estão presentes quando estou me afogando em lágrimas ou sofrendo tanto que quero apaziguar a dor com comida ou alguma outra ilusão. Na verdade, ninguém se importa realmente em saber o que eu quero, desde que eu esteja lá pra servir de palanque, de tábua de comparação onde eles sempre se colocam em patamar superior. Pois eu digo: chega de tutela, chega de administradores, chega de super-ação. Pra mim já deu.
O que eu quero no lugar é AÇÃO, sem super nada. sem superada. Só a ação, um ato que gera consequência. Um movimento que tem sua motivação na consciência sobre aquilo que se analisa. Um estado de atividade, sem ter que ser grandioso. Vamos tirar o superlativo da AÇÃO e ver o que acontece.
Faço aqui uma ação: peço que deixem as visões de vocês sobre este texto. Não se calem, deixem alguma resposta. Porque é difícil encontrar uma voz quando tudo o que eu falo ecoa num vazio.
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