O perdão e o desapego.
O perdão é possível?
Quando criança, passei por coisas muito doloridas, traumáticas. Agora, na meia-idade, estou analisando estes momentos com um olhar menos engajado, com um distanciamento emocional que pode me levar a compreender melhor o passado. E talvez me permitir perdoar a mim e aos outros pelas más escolhas e pelos maus amores.
Perdoar é uma palavra tão utilizada e tão pouco compreendida no dia a dia. A origem da palavra é o latim, per-donare. Perdonar significa, em português, doar , desistir de uma dívida .Eximir alguém de uma obrigação passada ou presente.
Minha interpretação deste ajuntamento é mais simples: doar ao outro a desobrigação de manter um vínculo gerado ou prometido. Liberar o outro de uma obrigação ou promessa, mesmo quando esta promessa abrange apenas os acordos tácitos de civilidade: respeito mútuo entre amigos, compromisso com o acordo de convivência entre amantes e, por fim, o comprometimento entre irmãos. Então, o primeiro momento do perdão é um ato de desapego ao próprio senso de importância: deixar ir.
Já o desapego é um outro processo, mais simples do que o do perdão. O desapego é, a grosso modo, uma forma de abandono. Simplesmente desapropriar um sujeito ou objeto de sua importância e tornar-se insensível ou indiferente a ela. Uma ideia que, sem a devida contextualização, se torna potencialmente injuriante aos envolvidos. Enquanto o perdão exige análise e escolha pelo soltar e livrar o outro e a si mesmo de obrigações simbólicas, o desapego é um largar. É como o ghosting no universo das redes sociais: você bloqueia, corta, elimina a outra pessoa sem dar uma chance ao outro de expressar suas emoções e sentimentos, até produzir uma conclusão que lhe seja válida.
Porque é muito difícil simplesmente soltar as coisas, e muitas vezes fazemos isso da boca pra fora, guardando as mágoas que se criaram no conflito. E perdemos a chance de crescer com a descoberta da análise sensível e sensata dos eventos e atitudes envolvidas.
Além disso, desapegar tem um apelo facilitador ao abandono, ao simplesmente deixar de lado coisas e pessoas, sem a possibilidade de contestação. Neste sentido, o perdão é mais amplo e apresenta melhores possibilidades de mútua compreensão e de dissolução de traumas. No desapego você individualmente decide o valor de algo ou alguém e descarta as ligações geradas por situações de mútuo cometimento. No perdão, você é obrigado a reconhecer os contratos de mútuo investimento emocional, físico ou material e abandona o acordo de obrigação mútua entre as partes.
Acredito que uma opção pode ser enriquecida pela outra, na medida em que perdoar e desapegar fazem parte do processo de dissolução de um trauma. Reconhecer que os laços criados foram rompidos, compreender as implicações deste rompimento. Liberar o outro de manter estas ligações, sejam quais forem, e, por fim, deixar que essas ligações sejam diluídas ou eliminadas da sua relação com este outro. Perdoar sem desapegar é um ato incompleto. Desapegar por desapegar é um ato egocêntrico e também é incompleto. Perdoar e desapegar parece ser um caminho mais coeso.
Mas como fazer isso? Há tanto a perdoar nas situações de trauma. Não sei nem por onde começar ou mesmo por onde terminar, o que parece tão importante quanto. Mais ainda, eu não sei onde o desapego pode ser posicionado: no início, quando tudo ainda dói? Desapegar da própria dor pra vivenciar o processo de perdão parece muito difícil. Mas percebo a importância de desapegar de um aspecto importante em toda relação: desapegar de sentimentos negativos gerados pelas ações de um ou outro durante a relação. Desapegar ou apenas relativizar os afetos gerados e suas consequências. E por outro lado, o reconhecimento. Reconhecer que estes afetos existem, elas ainda têm importância na sua atualidade, ainda que muito tempo tenha passado.
Esta é uma das coisas que aprendi no passado: quando se trata de situações ou emoções traumáticas, o tempo não importa. Especialmente porque tempo é uma construção pessoal, além de um contrato coletivo. O tempo, segundo Cazuza, não para. Mas ele marca, e as marcas geralmente ficam, no rosto , na pele, nos músculos da face, no músculo do coração que bate diferente quando vemos alguém que deveria ter ficado no passado, juntamente com as emoções que provocou. As emoções se imbricam na musculatura do corpo, na recomposição dos ossos, no apertar da garganta. E lidar com o perdão tem tudo a ver com essa urdidura entre músculos e sentimentos, entre emoções e ossatura, entre situações extremas e estressantes e corporalidade.
O grande problema, a meu ver, na maioria dos tratamentos ditos terapêuticos, especialmente os criados pela Psicologia, é que eles deixam de incluir as questões da corporalidade. Acham que a mente se resume à cabeça, ao cérebro, e esquecem ou simplificam o processo quando incentivam apenas a verbalização.
Falar é um momento importante, mas será suficiente para externar toda a complexidade dos processos de traumatização? Vou explorar estes temas em outros escritos. Mas, por enquanto, quero acrescentar que, em todo caso, hoje em dia não me parece mais possível separar as coisas: meu corpo precisa perdoar tanto quanto minha cabeça. E não é fácil praticar perdão ou desapego, sem olhar para os estragos que as situações traumáticas causaram ao meu ser como um todo. Tampouco é possível marcar um perímetro temporal no qual essas ações devem se manifestar e esse processo se "concluir" porque se eles não forem atingidos em sua corporalidade, será muito difícil extirpar todas as negatividades alojadas e escondidas no ser. Sem isso não é possível perdoar, é apenas possível o fingimento do perdão. Falar que perdoou sem passar pelo processo de desapego de negatividades acumuladas (tristeza, dor, raiva, sentimentos de vingança, delírios de superação, incapacidade de seguir adiante e tantas outras marcas) é como construir uma casa sem lançar uma base confiável. Uma hora a base fará falta, e a ruína será inevitável.
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